LUCIANA VILLAS-BOAS
A Dama das Letras
Nos anos 1980 Luciana Villas-Boas deixou a bancada do Jornal da Globo para mergulhar na reestruturação do Grupo Record, um dos maiores conglomerados editoriais do Brasil. 15 anos e milhares de livros depois, diz que ainda sonha com uma nação de leitores críticos e reflexivos, questiona o mito da chamada literatura comercial e aposta no casamento eterno entre papel e literatura:
“O leitor comum, que tem o prazer da leitura, gostará sempre do livro de papel”
Aos 20 e poucos, dona de uma beleza exuberante, Luciana Villas-Boas foi fisgada pela TV Globo e colocada como apresentadora de um dos telejornais da emissora. Em um caso raro da história da TV brasileira, Luciana cansou-se rapidamente do papel de ventríloqua, chutou um dos empregos mais cobiçados pela classe jornalística e decidiu começar tudo de novo. Ingressou
como repórter na redação de Veja e mais tarde no Jornal do Brasil. Jamais se arrependeu: “Nunca foi confortável fazer o papel da mulher de ‘rostinho bonitinho’”, diz Luciana. A televisão sempre foi um mundo estranho e distante para ela. Alfabetizada aos 4 anos pela mãe, não frequentou a pré-escola. Enquanto boa parte de seus amigos decorava a tabuada e acompanhava, deslumbrada, os seriados de TV, já uma coqueluche entre a classe média, Luciana lia a obra completa de Monteiro Lobato e flertava com Graciliano Ramos.
Não podia dar outra. Hoje, aos 52 anos dirige o Grupo Editorial Record, um dos maiores da América Latina, formado por dez editoras: Record, a primeira, fundada em 1942, Bertrand Brasil, José Olympio, Civilização Brasileira, Rosa dos Tempos, Nova Era, Difel, BestSeller, Edições BestBolso e Galera & Galerinha. Um império com mais de 6 mil títulosem catálogo e autores do porte de Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, PabloNeruda, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Fernando Sabino e Lya Luft. Esta última, aliás, uma das campeãs de vendas do grupo, é cria de Luciana, que não só se revelou uma ótima farejadora de talentos como colocou ordem na casa assim que chegou à Record, em 1985, profissionalizando imediatamente os departamentos de imprensa e de marketing, até então amadores. Foi Luciana quem também liderou o processo de expansão do grupo, adquirindo novas editoras e segmentando os departamentos. Mesmo levando trabalho pra casa, mesmo participando de reuniões de estratégia de vendas, ou acompanhando feiras e congressos pelo mundo, é uma das editoras mais solícitas e generosas com os novos autores – não deixa um e-mail sem resposta. Tenta fazer sua parte em um mercado que dá pouco espaço para novos escritores, enquanto sonha com um país de leitores, críticos e reflexivos, que privilegiem o bom livro e não apenas o que lhes é empurrado pelo mercado.
Quando sua paixão por livros foi despertada? Muito cedo. Meu pai, Augusto Villas-Boas, era jornalista, e minha mãe, dona de casa. Foi ela quem me alfabetizou. Eu não frequentei a préescola, aprendi a ler em casa, cercada de livros.E não precisei ser estimulada. Fiquei imediatamente apaixonada por Monteiro Lobato – lia de tudo, de Luluzinha a livro de adultos. Com 9 anos li Exodus [o romance épico escrito por Leon Uris]. Depois li muito Eça de Queiroz, um escritor que tem uma visão moderna da mulher. Ah, se ficar aqui lembrando dos livros que gostei...
Você foi integrante da equipe de apresentadoras do Jornal da Globo. Muitos jornalistas sonham com essa posição, mas você resolveu seguir o caminho inverso – trocou o glamour da TV pelo jornalismo impresso. Foi uma decisãocorajosa? Não era aquilo que eu queria pra mim. Eu não me sentia bem com o que fazia, achava que não era um trabalho desafiador, estimulante intelectualmente. Queriam que eu representasse um papel, mas não era confortável pra mim.
Que papel? O do rostinho bonitinho. Além do mais, eu não tenho talento algum para a linguagem audiovisual, não é a minha praia. Eu me sentia insegura no vídeo. Como ia fazer bem algo que eu não conhecia nem como telespectadora? Eu quase não via televisão. Só lia, lia, lia.
Você foi parar na revista Veja e, depois, no Jornal do Brasil. Até que ponto a sua passagem pelo jornalismo impresso foi importante e facilitou seu trabalho como editora da Record ?Foi fundamental. Primeiro, foi o que me permitiu descobrir, em termos muito práticos, que havia um mundo de edição como opção profissional. Quando eu era bem menina eu pensava, e até com uma dose de razão, que ser editora no Brasil não era uma possibilidade profissional, que provavelmente seria um emprego muito mal pago. As editoras eram pequenas, familiares, com poucas ambições empresariais.
E você, como jornalista, encontrou um universo diferente.... Sim, eu conversava muito com os editores. Eu tinha uma coluna no “Ideias”, o caderno literário do Jornal do Brasil. Fiquei lá até 1995. Mas antes fiz de tudo: fui repórter, editora de política, de internacional. E a redação naquele tempo era um treino de tomada de decisão que é algo fundamental para qualquer empresa e empreendimento. E quando cheguei à Record, em 1995, esse “time” foi fundamental para a editora, que ainda era muito provinciana, pouco profissional, assim como todas as outras editoras brasileiras. Esse cenário,aliás, começou a mudar quando eu e outros profissionais da imprensa, como Isa Pessoa e Robert Feith, migraram de jornais e revistas para o mundo da edição.
E como foi a sua chegada à Record?A Record era muito menor. Hoje é um grupo empresarial que controla seis editoras. Já era a maior editora do mercado brasileiro, mas os modos operacionais ainda eram pouco profissionalizados. Você não tinha editoras que adquirissem títulos. A própria escolha de títulos era muito centralizada pelo próprio Sergio Machado, o dono da Record. Houve, então, um esforço para a contratação de profissionais capacitados e começamos, enfim, um projeto de reestruturação de todos os departamentos.
Como é dirigir uma das maiores editoras doBrasil em um país de poucos leitores, poucas bibliotecas e de quase nenhum incentivo?Quando eu entrei na Record, havia um lançamento de Sidney Sheldon [romancista americano, um dos maiores vendedores de livros de todos os tempos] a cada dois anos. A primeira tiragem, de 100 mil exemplares, dava para mais de um ano. E esse era o teto de vendas, que começou a ser furado pelo Paulo Coelho, que chegava a 200, 300 mil livros. Hoje, você tem fenômeno de vendas muito superiores, que chegam a 2 milhões de exemplares. Ou seja, os livros de qualidade continuam não sendo lidos, mas, pelo menos há mais gente lendo.
O importante é que se leia independentemente da qualidade do livro? Eu acho que sim. Claro que seria melhor se todo mundo fosse capaz de ler um bom livro. Mas só o fato de estar próximo da leitura, da decifração do texto, já é um avanço tão grande, uma abertura para a imaginação.
As editoras também não têm o dever de lançar livros melhores, de mais qualidade? Fazer, enfim, que bons livros cheguem à classe C?Eu não sei se é um desafio da editora. É um desafio da sociedade em geral ter uma população letrada, capaz de ler, refletir, criticar. A editora só tem a ganhar com a formação dessa massa de leitores..
Mas formar uma massa de leitores à base de manuais de autoajuda e best-sellers de qualidade duvidosa não é um retrocesso?É o que eu disse há pouco: qualquer livro é melhor do que nada, do que a televisão. Mal ou bem, está formando um leitor. Mas é claro que a obra de autores muito comerciais não estimula nenhuma prática de reflexão. Eu tenho certeza de que a Record e outras grandes editoras brasileiras vão ganhar ainda mais quando boa parte da população desenvolver níveis melhores de leitura, de raciocínio, de reflexão. Mas isso vai ocorrer quando a gente melhorar a qualidade da educação e não quando uma editora deixar de vendar livro comercial.
Qual a sua opinião sobre o governo Lula? Ainda estamos estacionados quando o assunto é o desenvolvimento do leitor brasileiro?É ótimo que tenha havido essa distribuição de renda, mas não foi feito nada pela educação, que também é um grande promotor de distribuição de renda. Tanto é que agora você tem um tipo de emprego mas não tem mão de obra para cobrir as vagas que estão aí porque as pessoas não estão qualifi cadas.
O Paulo Coelho, um autor que já passou pela Record, é, afi nal, um bom escritor ou apenas um bom vendedor de livros?Vou confessar uma ignorância: eu nunca li Paulo Coelho direito. Eu li somente um livro, quando não era editora – era do caderno “Ideias” do JB. Eu tinha de entrevistá-lo para o programa Roda Viva, da TV Cultura, e li Na Margem do Rio Piedra eu Sentei e Chorei. Enfim, não posso falar muito do trabalho dele. Tenho impressão de que hoje ele está com menos apelo no Brasil, mas no mundo continua muito prestigiado. Não é motivo de vergonha para a gente. O Paulo Coelho é... Você faz umas perguntas cabeludas, hein!
Por que não há uma renovação dos escritores brasileiros? Quando falamos de grandes autores vivos, lembramos de Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, ambos com mais de 80 anos.. .É o nosso maior paradoxo. Fico impressionada que, no momento de grande pujança no mercado editorial, a literatura brasileira se encontre tão acanhada. Eu desconfi o que
parte da responsabilidade por esse quadro é da nossa crítica literária. Hoje, você tem o predomínio de uma crítica universitária que valoriza somente a linguagem ultraexperimental, fragmentária, típica do pós-modernismo. Ela não abre espaço para que uma literatura, mesmo escrita com um grande domínio do idioma, mesmo original na sua temática, seja valorizada, reconhecida. Na imprensa, os jornalistas estão sobrecarregados, não têm tempo e também não têm muita formação para avaliar o que está sendo produzido. Eles precisam quase sempre do aval dos departamentos de letras, que só patrocinam aquele tipo de literatura que na verdade é motivo de ojeriza por parte do leitor mediamente formado, que gosta de um bom romance. Às vezes grandes romances não conseguem uma só linha nos jornais e revistas. É um círculo vicioso, que precisa ser rompido. E só será rompido quando houver uma mudança profunda
na nossa crítica literária.
Esse é um problema do mercado brasileiro? Sim, é um fenômeno tipicamente brasileiro. Veja o caso da Inglaterra, do grande prêmio literário deles, o Booker Prize. Dos cinco fi nalistas, quatro eram romances históricos, todos de imensa qualidade. Aqui no Brasil, um romance histórico brasileiro não entra nem na lista dos 50 mais vendidos, por melhor que seja. Daqui a pouco as pessoas vão analisar a literatura brasileira da mesma forma com que analisam o cinema brasileiro nos anos 70 e 80, com aqueles fi lmes a que ninguém conseguia assistir de tão fragmentários. Um tipo de literatura que não abre uma janela para o leitor. É lamentável.
Faz diferença uma mulher comandar uma das maiores editoras do país ou isso não faz diferença na hora de escolher e publicar livros? Não sei se faz muita diferença, não. Tem uma coisa que é verdadeira: a mulher é mais leitora do que o homem. Então, deve ser importante ter uma mulher vendo o que deve ser publicado, pois difi cilmente um homem escolheria Diário de Bridget Jones, um livro rigorosamente feminino. Eu me lembro que quando contratei esse livro o Sérgio Machado, dono da Record, chegou pra mim, assustado: “Você vai comprar um livro com esse título? Vai vender alguma coisa?”. Eu expliquei que era a visão de uma mulher contemporânea, que podia fazer sucesso no Brasil. Como homem, ele não achou a mínima graça. O livro vendeu, só aqui, 250 mil exemplares.
Você é sempre solícita com novos autores. Costuma responder a quase todas as propostas de livro. Já enfrentou algum escritor obsessivo, que não se conformou com sua recusa? .Muitos. Eu tenho essa coisa de ser muito aberta. Tento sempre ser educada, gentil. Mas tem gente que reage de maneira agressiva. Quando digo que não é possível publicar, a pessoa explode, me xinga por e-mail. Normalmente dizem que eu sou “uma mercantilista, que só penso na lógica comercial, no lucro”. Os poetas costumam ser os mais agressivos. Teve um que ameaçou se matar se eu não publicasse os seus poemas.
Ele se matou? Não sei. Espero que tenha sido apenas uma ameaça.
Em um futuro próximo o livro de papel vai acabar ou ele sobreviverá ao advento de novas tecnologias? Vai haver um mercado de livro eletrônico, mas esse mercado, principalmente em alguns países, será voltado para pessoas que não são exclusivamente leitores, como pesquisadores, historiadores, estudantes universitários, em que a presença do livro eletrônico torna, de fato, sua vida mais prática. Mas o leitor comum, o que tem o prazer da leitura, eu tenho a impressão de que gostará sempre do livro de papel. Minha fi lha de 20 anos é uma superleitora e é a pessoa da casa que mais tem afi nidade com a linguagem digital, ainda mais do que o meu fi lho de apenas 16 anos. Ela acha o meu leitor Sony muito ruim. Prefere os meus livros velhos, de 40, 50 anos. Que bom, né?
|
|



|