Inovação


Desconcerto


Vitor Araújo, o jovem pianista que ousou revisitar os clássicos com as notas da inovação



De uma pequena janela de vidro na porta de entrada do Tom Jazz é possível ver o menino que acaba de chegar à casa de shows, localizada no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Um desconhecido não o deixaria entrar. Vitor Araújo tem os cabelos emaranhados, fitas do Bonfim enroladas ao pulso e veste calça jeans surrada que parece combinar com o vermelho opaco de seu All Star. Aos 20 anos, Vitor é tido como uma das boas surpresas da música erudita brasileira, um pianista elogiado pelos vanguardistas e visto com desconfiança pelos ortodoxos, não só por sua indumentária, mas principalmente pela maneira com que conduz seu piano clássico. “Não gosto de nada que é limpo. Meu negócio é sujeira”


Já sentado ao piano, uma frase que podia perfeitamente estar na boca de um integrante dos Sex Pistols.

 

É natural que um garoto que cresceu ouvindo Radiohead e Nirvana pense assim. E Pernambuco, de Naná Vasconcelos a Chico Science, tem tradição de revelar músicos experimentais. Mas Vitor não é só um pianista curioso, transgressor – ele junta a vontade de inovar com um imenso talento técnico, resultado de sua passagem pelo Conservatório Pernambucano de Música, onde começou estudar com 8, 9 anos. “Não tinha habilidade para nenhum esporte e acabei concentrando minhas energias na música”, diz. Porém, mesmo perna de pau, é apaixonado por futebol – não perde um jogo do Náutico e, quando não está tocando, passa boa parte do tempo fingindo que é Wayne Rooney (o craque inglês do Manchester United) em seu Playstation.

 

Vitor passará a torcer à distância para seu time de coração. Ele está de malas prontas para São Paulo, onde vai morar no bairro de Perdizes – a namorada, carioca, chega depois. A vinda para São Paulo foi inevitável por causa dos compromissos profissionais e para respirar novos ares. Desde que lançou seu primeiro trabalho, Toc – Ao Vivo no Teatro Vila Isabel, um dual disc (embalagem com CD de um lado e DVD do outro), acumulou prêmios no mesmo ritmo em que colecionou desafetos na capital pernambucana – todos eles pertencentes à classe erudita. Em um primeiro momento, Vitor foi tratado como menino prodígio – com um ano de conservatório conseguiu vencer o prestigiado Concurso Nacional de Piano Magda Tagliaferro. Mas, para desgosto da classe, ele estava muito mais para Kurt Cobain do que para Nelson Freire. “Eu estudei muito, mas nunca quis ser um virtuoso. Não gosto de concursos e acho chato esse clima de competição entre músicos eruditos para ver quem é o melhor”, diz. “Quero aproveitar meu tempo para fazer coisas novas e não para ser o melhor nisso ou naquilo.”

 

A admiração por Nirvana quase abortou sua carreira de pianista. No começo da adolescência, encostou seu piano, comprou uma guitarra e cismou que seria Kurt Cobain. O surto, para sorte do pai, funcionário público e seu principal incentivador, durou pouco. Mas o espírito grunge fi cou. De volta ao piano, e já livre das amarras do conservatório, passou a postar vídeos de suas experimentações. Um deles, uma mistura de música clássica com frevo, foi visto pelo maestro Marlos Nobre, que, indignado, chegou a escrever um artigo no Jornal do Commercio, o mais importante de Recife. “Ele dizia que eu era um subversivo, que deveria respeitar a música clássica. Achei um elogio e tanto”, brinca Vitor. “O curioso é que desde Beethoven a música erudita foi de montar uma trilogia de concertos de caráter ensaístico falando sobre paixão. O primeiro ato, “Paixão e Fúria (ou O Desespero)”, já estreou em São Paulo, e os dois próximos, “Paixão e Silêncio” e “Paixão e Orgasmo” (veja só, Marlos Nobre!), estão em pleno laboratório. “Eu criei três atos, cada um sendo um concerto, para ilustrar esses sentimentos que a paixão leva ao exagero”, diz Vitor, que nunca exagerou quando o tema é paixão. “Sempre tive mais pianos do que mulheres.”

 

O primeiro ato, “Paixão e Fúria”, é defi nido pelo autor como uma espécie de “concerto-monólogo”, com mais músicas de sua autoria do que interpretações. Em algumas passagens, ele vai utilizar a técnica que tem dado arrepio nos mais puritanos, a de usar um pedal de guitarra no piano, enquanto lê poemas de Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos e Arnaldo Antunes. “Eu me inspiro muito em cinema, nos fi lmes que vejo. Esse primeiro ato tem muito de Almodóvar, aquela coisa de paixão hedonista, carnal”, diz Vitor. A paixão por cinema, aliás, motivou sua mudança para São Paulo. “Eu preciso ir ao cinema pelo menos três vezes por semana para alimentar o meu trabalho. No Recife, fico preso ao cinemão americano.”

 

Músico erudito não costuma ter tempo livre para projetos paralelos. Vitor Araújo tem. Ele é um dos quatro integrantes do Seu Chico, grupo que toca apenas músicas de Chico Buarque. O que começou como uma brincadeira de fã acabou virando coisa séria e hoje a banda cumpre uma agenda cheia no circuito alternativo de São Paulo e Rio. Vitor nunca tocou com o ídolo Chico, mas já o enfrentou numa pelada do Politheama, o time de futebol de várzea criado pelo compositor carioca. Os “velhinhos”, lembra Vitor, comandados por Chico, venceram a banda criada em homenagem a ele por 7 a 2. Uma lavada. “A gente não queria correr o risco de ganhar do Chico. Vai que ele fi ca bravo e resolve acabar com o nosso grupo”, brinca Vitor.


  Laura Wie e Touareg
Porta Malas Touareg
Touareg