CAMALEÃO


Com pinta de bom moço e cara de criança, Caio Blat prova em cinco estreias no cinema sua capacidade de ser qualquer cidadão do mundo. Veste tão bem o fracassado escritor classe média Zeca em Histórias de amor duram apenas 90 minutos quanto o sequestrador Macu, de Bróder, interpretação tão marcante que o torna praticamente irreconhecível. Um verdadeiro mestre da transformação


Uma metamorfose ambulante. Um homem que prefere fazer agora exatamente o oposto do que fez antes. Assim é Caio Blat, ator paulista de 29 anos de idade que trilha uma carreira de sucesso, convencido de que a graça da profissão está justamente na possibilidade de um dia ser o galã-mauricinho da novela das oito e, no outro, um personagem qualquer do submundo aflitivo do cineasta Cláudio Assis.

E Caio já provou que sabe ir do oito ao oitenta, da água para o vinho, do Cícero de Baixio das bestas ao Ravi de Caminho das Índias sem problemas. A velocidade com que o baixinho de 1,68 m e menos de 60 quilos se mimetiza é tanta que certamente há por aí um camaleão com ataques de baixa autoestima. Em 2002, depois de levar Cama de gato, de Alexandre Stockler, ao festival de cinema de Havana, Caio passou 40 dias em Cuba. Alugou um carro que lhe serviria de abrigo e decidiu não lavar roupa – compraria peças de segunda mão à medida que achasse necessário. Na aventura, temperou seu espanhol com o sotaque cubano e caiu de boca na cultura local. Comprou charutos, folhas de tabaco, discos, livros e garrafas de rum. Em pouco tempo, transformou-se num ilhéu. Tanto foi que, na volta ao Brasil, em uma conexão aérea realizada no México, acabou detido pela polícia.

“Eu falava como cubano, tinha barba e bigode de cubano, trazia na mala um monte de produtos de lá e ainda havia desembarcado com uma cubana que nunca tinha voado e precisava de ajuda... Os caras pensaram: ‘se não tiver autorização para sair da ilha, é fugitivo’. E o único documento que eu carregava era o passaporte brasileiro”, conta Caio aos risos, amontoando os pés descalços sobre um sofá cinza do camarim da Fundição Progresso, uma das principais casas de show do centro do Rio. Se não fosse pela carteirinha do plano de saúde com um logotipo da Rede Globo – que na ocasião pareceu ter mais valor do que o passaporte verde-escuro da República Federativa do Brasil –, ele ainda estaria por lá, repetindo à exaustão “Pero señor, yo soy un actor, un actor!”.

Alguns anos depois de se livrar dos bigodudos mexicanos, Caio Blat foi a Nazaré da Mata, em Pernambuco, para gravar Baixio das Bestas com o diretor Cláudio Assis. Chegou destoando de tudo e de todos, em uma calça jeans de grife e um modernoso par de óculos Ray-Ban. Seu dom de adaptação ao meio entrou em ação, e Caio se ajustou tão rápido que, antes de completar dois meses na cidade, foi parado na rua para dar informações. Seus interlocutores, que conduziam perdidos ao redor da praça, não obtiveram a resposta desejada. Tampouco identificaram o artista por trás do sotaque e da simpatia adquiridos pelo ator por osmose.

Em 2009, Caio “mutante” Blat foi parar no Capão Redondo, em São Paulo. Precisava respirar o ar da periferia antes de encarnar o personagem de Bróder, um dos cinco filmes que estreia este ano. Raspou a cabeça, mudou o estilo da barba, o tom de voz e o vocabulário, jogou a mochila nas costas e passou a andar diferente. Parecia possuído.

Um dia, antes de bater ponto no set do diretor Jeferson De, parou num restaurante a um quarteirão da Avenida Paulista. Queria comer um galeto simples, mas sua metamorfose já havia atingido um grau tão avassalador que o garçom se recusou a atendê-lo. Insinuando que não passava de um marginal, repetiu que só lhe serviria se ele tirasse a ficha antes, no balcão. Caio foi embora. No dia seguinte, denunciou o preconceito na Folha de S.Paulo e provocou um merecido alvoroço.

Entre um personagem e outro, Caio assume sua porção família. Acaba de ter o primeiro filho biológico, Bento, com a atriz Maria Ribeiro. Ao falar do rebento, a metamorfose ambulante abre um sorriso largo que faz saltar na testa duas veias em forma de V. Os olhos brilham e o rosto resplandece. Esta é, sem dúvida, a mais nova faceta de Caio Blat: a de pai babão.

Qual foi a sensação ao ser barrado no restaurante? Você quis voar no pescoço do garçom?
Na hora tive ódio da humilhação, de sentir o que muitos manos sentem todos os dias, mas, depois, percebi que era um bom sinal. O personagem do filme já estava ali, sentado à mesa comigo.

Mas você topa todas as transformações?
Existe algo que se nega a fazer? Bom, apesar de viver no Rio há uma década, de ter um filho aqui e de estar inteiramente ancorado na cidade, acho que nunca vou “encariocar” de vez. Todos os anos, me esforço para descolar projetos de teatro, de cinema e de TV que me mantenham em São Paulo por pelo menos dois meses. Tenho um apartamento na Paulista e adoro ir para lá. Minhas raízes estão no teatro da Praça Roosevelt, né? Não consigo ficar muito longe de lá. Mas o que impede você de “encariocar”?
Eu entendo e admiro o relaxamento do carioca, essa coisa mais dispersiva e anárquica do Rio, mas eu sou um paulista de DNA no que diz respeito à ordem e à pesquisa profissional. Preciso disso e só São Paulo tem.

Você terminou os estudos?
O colégio, sim. A faculdade, infelizmente, não. Comecei a fazer direito no Largo de São Francisco, onde sabia que encontraria coisas maravilhosas do meu romancista favorito Álvares de Azevedo, mas larguei as aulas pouco tempo depois para me mudar para o Rio.

Você começou a trabalhar ainda criança, não é?
É. Quando eu olho minha carteira de trabalho, tenho vontade de processar meus pais por trabalho infantil [risos]. Meus primeiros contratos foram feitos quando eu tinha 9 anos. Daí pra frente não parei... Mas meus pais sempre diziam que eu deveria encarar a carreira de ator como plano B. Que meu plano A deveria ser passar no vestibular e fazer uma faculdade. Fiz tudo direitinho, mas aí o plano B deu certo, né?

E como foi aterrissar no Rio?
Foi estranho. Eu já tinha dez anos de carreira. Em São Paulo já era um ator de teatro reconhecido, mas aqui ninguém fazia a menor ideia. Aí me deram um monte de papéis de menino bonitinho e bonzinho para fazer. Chegou uma hora em que eu tive de dar um basta, tomar uma atitude drástica para mostrar logo que eu não era só aquilo. Aí embarquei em Cama de gato e Lavoura arcaica.

É impressão ou seu prazer está exatamente em ir de um polo a outro?
Isso! Para mim, o bacana é filmar hoje com o Guel Arraes e toda a estrutura da Globo e amanhã com o Jefferson De no Capão Redondo, com um filme que para o tempo todo por falta de verba. É trabalhar com o Hector Babenco e o Cláudio Assis, que se odeiam. É estar na novela das oito e também no filme da Laís Bodansky. Essa é a graça de ser ator.

Em 2010, além de Bróder, você estreia Histórias de amor duram apenas 90 minutos, Os inquilinos, As melhores coisas do mundo e O bem amado. O que se pode esperar dessa safra?
Coisas muito legais. Foi muito trabalho. Mas o melhor é que finalmente estou fazendo personagens que têm a mesma idade que eu. Não tem mais aquela coisa de querer me rejuvenescer, de me colocar como o garotinho bonitinho da trama. No filme da Laís Bodansky – As melhores coisas do mundo –, eu sou o professor em vez do aluno! Não é muito bom? E para encarnar bem esse personagem [risos] me baseei na figura do documentarista João Moreira Salles, que dá aula na PUC do Rio. Coloquei a camisa pra dentro da calça e passei muito gel no cabelo. Virei outra pessoa.

E em todos os outros filmes também, né?
É! Quando o [escritor e rapper] Ferréz viu Os inquilinos disse que eu realmente tinha representado a periferia numa cena em que se discute violência. Fiquei orgulhosíssimo.

Qual sua opinião sobre essa safra de filmes nacionais sobre violência, tipo Tropa de elite?
Não é mais a minha praia. Em Bróder, que tinha tudo para ser violentíssimo, a coisa não acontece. O espectador vai passar o tempo todo achando que vai ver sangue mas não vê. Prefiro uma coisa mais light.

Em Histórias de amor duram apenas 90 minutos, você contracena com sua mulher, a atriz Maria Ribeiro. Como foi?
Foi muito interessante, porque era um projeto nosso. Mas deu briga também. No filme a gente interpreta um casal envolvido num triângulo amoroso, com ciúmes e tal. Controlar isso foi uma tarefa dura.

Em junho você completa 30 anos. Já deu para sentir o peso da idade?
Não. Nem ligo para isso!

E como anda a gaveta dos sonhos não realizados? Muita coisa empilhada?
Mais ou menos. Tenho vontade de filmar na Argentina e de me transformar numa referência do cinema latino-americano – algo como hoje é o mexicano Gael García Bernal. Mas o fato de falar português, apesar de ser fluente em espanhol também, atrapalha.

Mas o maior sonho, qual é?
Ah... é algo bem mais ideológico. Quero implantar no Brasil um projeto que batizei como “DVD Legal”.

Do que se trata?
A ideia se resume em fazer com o DVD o que foi feito com o carro, a geladeira e o fogão há pouco tempo: reduzir os impostos que pairam sobre eles para tornálos mais acessíveis. Se existe carro popular, por que não existe DVD popular?

Você está falando em legalizar a pirataria?
Exatamente. Legalizar o que os piratas fazem há anos e ganhar com isso. Quero criar um DVD barato, sem extras, sem frescuras, com encarte simples e ecologicamente correto para que o cara possa ver o que realmente interessa: o filme. A Unicamp até já desenvolveu um sistema de prensar discos semimetalizados que torna a coisa muito mais barata. Vamos, então, legalizar um mercado que nunca será domado e ganhar com isso. esse não é o mesmo discurso de quem defende a legalização da maconha... É. E eu defendo as duas coisas. Vamos deixar o pessoal de Cabrobó, no interior de Pernambuco, plantar maconha legalmente e ganhar na venda de produtos feitos com a planta. Por que não?

E por que a ideia não vai adiante? Você já conversou sobre o “DVD legal” com alguém que pudesse realmente tocar o projeto?
Eu fico falando no ouvido dos caras da Globo Filmes e da Columbia, mas eles dizem que eu estou querendo quebrar a janela que separa o cinema do DVD, da locadora, do Telecine e da TV aberta. Mas aí eu respondo: “Meu irmão, os piratas já quebraram essa janela há anos... Seu fi lme estreia hoje e, no dia seguinte, está na Uruguaiana”. Para mim, é uma questão de refazer a equação. O que é melhor: vender dez DVDs a 50 reais ou 1 milhão de DVDs a 5? Em Bangladesh, o Muhammad Yunus, que levou o Nobel, provou para o mundo inteiro que a política do microcrédito é um sucesso e dá certo. É óbvio que é esse o caminho.

Falando assim, você parece um homem de esquerda. É?
Não. Não acho que exista esquerda nem direita. É tudo a mesma coisa. Gosto da efi ciência administrativa dos tucanos em São Paulo e das políticas sociais do PT. Já fi z campanha para o Lula, mas hoje sou um petista frustrado e acho tudo a mesma coisa. Mensalão do DEM é igual ao mensalão anterior. Mas há alguns nomes que eu defendo até o fi m: Gabeira, Chico Alencar e Cristovam Buarque.

E, na sua opinião, quem ganha a eleição deste ano?
Não faço a menor ideia. O Brasil é um mistério.

Passando para o universo cultural, que tipo de música você escuta?
Sou fã incondicional de Tom Zé e Baden Powell. Gosto de Roberto Carlos, Mutantes... mas acho que a música acabou nos anos 80. E, como não poderia deixar de ser, vou ao outro extremo da coisa e confesso: adoro heavy metal [risos].

Do seu ponto de vista, como anda a indústria nacional de cinema?
Mal. É vergonhoso o fato de quase 100% do cinema brasileiro ser feito com renúncia fiscal, seguindo uma forte política cultural pública, até a hora de fi car pronto. Aí, quando o fi lme é lançado, vira produto de mercado e não tem mais nenhuma política de acesso a ele.

Você é contra a lei Rouanet?
Não. Só acho que não dá para fi nanciar o fi lme para depois o dono dele vender por quanto quiser, o cara do cinema pôr o ingresso no preço que mais lhe convier e a distribuição levar a obra só para as cidades que interessam comercialmente. Tem de ter uma contrapartida. Existe, sim, um caminho que permite que o filme dê lucro e seja vendido socialmente.

O “DVD legal”?
Claro! [risos].

Desde o dia 15 de janeiro, quando sua esposa, a atriz maria Ribeiro, deu à luz seu primeiro fi lho biológico, você virou pai. a paternidade dá trabalho?
Na verdade, não. É uma delícia cuidar de uma coisinha tão pequenina e tão importante, mesmo que o meu turno seja o da madrugada [risos].

Além de Bento, você também tem o Antônio, que adotou com sua primeira mulher, a cantora ana ariel, registrado em seu nome. Há diferenças?
A história com o Antônio é um pouco triste... A Ana não me deixa chegar perto dele. Convivemos ao longo do primeiro ano, mas não muito mais.

E há diferenças entre sua relação com o pequeno Bento e sua relação com o João, filho de sua esposa com o ator Paulo Betti?
Isso é curioso demais. Antes de o Bento nascer, muita gente me dizia que na hora do parto eu finalmente saberia o que é ser pai. Avisavam: “Na hora você vai sentir uma coisa diferente. Espere só para ver”. Mas a chegada do Bento só me fez ver que eu já era pai – do João – há muito tempo. Foi uma descoberta incrível, emocionante. Eu trato os dois igualzinho, com o mesmo carinho. O amor é o mesmo.

As olheiras e o cabelo semidespenteado fazem parte do novo personagem que encarnou, o de pai?
Sim [risos]. Agora eu encarnei o pai babão.
 


foto: Carrie Vonderhaar, Ocean Futures Society/KQED/cour/photo courtesy of NCPB