FUTEBOL 3D ENTRA EM CAMPO


Tecnologia faz aquecimento para os gramados da Copa do Mundo de 2010.


Sob um vento gelado típico do inverno sul-africano, os jogadores devidamente uniformizados se preparam para entrar em campo. As gotas de suor ainda escorrem nas camisas verde-amarelas, consequência do intenso aquecimento feito no vestiário. Assim que as chuteiras tocam o gramado, as lágrimas se acumulam no canto dos olhos com a calorosa recepção dos quase 94,5 mil torcedores que lotam as arquibancadas. No centro do campo, o time adversário acompanha a entrada da Seleção com expressões intimidadoras. A respiração ofegante, no entanto, denuncia o nervosismo de enfrentar um time pentacampão. O juiz logo apita dando início à partida no estádio Soccer City, em Johannesburgo. Do meio do campo, o capitão Lúcio toca a bola para Maicon, que inverte a jogada surpreendendo o lateral esquerdo adversário. Já dentro da pequena área, Kaká pede o passe com uma discreta levantada de mão. Prontamente atendido, bate com força no ângulo direito. O goleiro estica os braços, mas não consegue chegar a tempo. A bola voa como uma flecha em direção ao telespectador que, com a sensação de estar dentro da rede, se abaixa do outro lado da tela para não ser atingido. A nitidez dos detalhes e a imagem tridimensional das jogadas poderiam indicar os efeitos de uma projeção cinematográfica. Mas a cena está longe de ser ficção. Tirando o placar e a escalação dos jogadores, ainda não definidos, tudo isso será, a partir do dia 9 de junho, uma realidade. Durante a Copa do Mundo de 2010, a Sony captará as imagens de 25 partidas em 3D utilizando suas câmeras especiais. Os jogos em terceira dimensão serão transmitidos em Copacabana, no Rio de Janeiro, e em mais outras seis cidades ao redor do mundo – Roma, Sydney, Paris, Londres, Cidade do México e Berlim. “Em parceria com a FIFA, a Sony quer levar a emoção da Copa para fora dos estádios, ao ar livre e gratuitamente”, declara Lucio Pereira, gerente de comunicação e propaganda da Sony Brasil.

A tecnologia 3D não é nenhuma novidade. No entanto, a possibilidade de acompanhar pela TV situações em tempo real como se estivesse presente fisicamente agita o mercado de áudio e vídeo. “Queremos trazer o realismo para dentro de casa”, afirma Daniel Kawano, analista de produtos da Panasonic. Os ingleses foram os primeiros a experimentar a sensação. Em janeiro deste ano, a partida entre os times Arsenal e Manchester United, pela 24ª rodada do Campeonato Inglês, foi transmitida experimentalmente em 3D no Reino Unido. Nove bares nas cidades de Londres, Manchester, Cardiff, Edimburgo e Dublin foram escolhidos pela Sky Sports para veicular a novidade. A iniciativa contou com a ajuda de James Cameron, diretor de filmes como Titanic e, mais recentemente, Avatar, ícone da nova geração de produções em 3D.

O Brasil não teve de esperar muito para viver sua própria experiência tridimensional. Exatos 15 dias após o jogo inglês, o país se tornou o segundo no mundo a entrar na nova realidade com a transmissão dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro ao vivo e em 3D pela Rede Globo, em parceira com a NET. “Foi a confirmação de que o Brasil está na vanguarda tecnológica em transmissão de conteúdo”, aposta Marcio Carvalho, diretor de produtos e serviços da NET. Nos dias 14 e 15 de fevereiro, o sinal foi gerado pela emissora utilizando câmeras especiais e transmitido em caráter experimental pela NET via cabo para sua rede, por meio do canal 750. A novidade deixou boquiabertas até celebridades internacionais como Madonna.

Precinho nada camarada

A introdução da terceira dimensão na televisão é vista pelo mercado como uma mudança de paradigma – tal como aconteceu com a passagem da imagem em pretoebranco para a colorida. A nova tecnologia faz com que o telespectador tenha a sensação de profundidade, introduzindo-o dentro da cena. O trabalho começa nas filmagens. As imagens são captadas por duas câmeras diferentes – uma simula a visão do olho esquerdo, a outra do direito. A forma como as imagens são combinadas é que cria o efeito tridimensional. “Caso contrário, o público perceberia que há algo errado, e isso causaria um desconforto para quem assiste ao conteúdo”, explica José Dias, diretor de novas mídias da Rede Globo. Uma televisão convencional não é capaz de fazer essa leitura. Para tanto, é preciso ter uma TV apropriada, com uma velocidade de transmissão de imagens superior à dos aparelhos FullHDs existentes no mercado. Além disso, a tecnologia ainda precisa do efeito dos óculos 3D, iguais aos usados no cinema, para transmitir ao cérebro a ilusão da profundidade. Porém, esses equipamentos estão apenas em fase experimental.

As principais fabricantes, como Sony, Panasonic e LG, já anunciaram a produção em escala de TVs compatíveis, com óculos personalizados. A previsão é de que isso aconteça no primeiro semestre deste ano. No Brasil, as TVs 3D só devem ser lançadas no final de 2010. Os preços também devem ser de outra dimensão... “Toda tecnologia com recurso inovador tende a ter um custo mais elevado”, relativisa Daniel Kawano, analista de produtos da Panasonic. “E quanto maior a tela, mais realista serão os efeitos 3D”, acrescenta. Segundo o especialista, o tamanho das TVs em 3D deve sair com uma média de 50 polegadas.

A passagem para a terceira dimensão não depende somente da troca de televisores: o formato exige novos conteúdos. O primeiro equipamento capaz de transmitir o sinal 3D para a TV será o Blu-Ray. Assim que os filmes nesse formato entrarem no mercado será possível aproveitar os recursos das novas TVs. Além disso, alguns canais como a ESPN e a própria Globo já se preparam para gerar conteúdo neste formato. A Sky e NET também trabalham para oferecer programas de alta definição em 3D até o final de 2010. A NET estima investir R$ 200 milhões nessa tecnologia nos próximos meses. Mergulhar nesse universo tridimensional é uma questão de tempo... e dinheiro, é claro.